A MODA, OS MEMES E A ALTA-COSTURA

É TENDÊNCIA! EVENTO MAIS LUXUOSO DO MUNDO DA MODA SE APROPRIA DA LINGUAGEM DA INTERNET.

 

É tendência! Você ainda assistiria a um desfile se não pudesse instagramá-lo? Em tempos frenéticos de engajamento on-line, essa questão parece pairar no ar cada vez que analisamos uma nova temporada de moda.

Isso porque, entra semana, sai semana, a situação se repete: inúmeros convidados aparecem sentados às margens da passarela filmando as novas coleções por celular para, assim, compartilharem com a sua rede a experiência curiosa de conferir os lançamentos através da tela, ainda que o simples gesto de olhar para frente parecesse óbvio numa situação assim.

Na última temporada de alta-costura, que aconteceu mês passado, essa impressão se manteve por aqui e, de certa forma também pareceu servir de inspiração para algumas maisons, como no caso da Viktor and Rolf, que ironizou a própria presença no line-up com frases sincericidas como “eu não sou tímid@, apenas não gosto de você”, na foto em destaque, apresentada para a plateia ao vivo, embora conectada nas redes sociais.

Isso porque um dos principais locais comuns nas coberturas desses eventos são justamente as imagens frontais de looks completos, que acabam invariavelmente esquecidas no consciente coletivo, a menos que haja esse tipo de elemento surpresa, cuja linguagem rompe as barrerias cristalizadas das elites que consomem esses produtos.

Assim, não é difícil entender como tal irreverência em plena semana de alta-costura, claramente pinçada de t-shirts vendidas aos montes em lojas de fast fashion para adolescentes, rendeu para a marca o tão querido boca a boca virtual. O desfile foi pensado para virar meme.

Desfile da Viktor and Rolf versus memes

De certo modo, o reflexo desse comportamento do público também apareceu nas entrelinhas do desfile da Margiela, liderado pelo polêmico John Galiano, que aprofundou a discussão sobre o que é real e ilusório num desfile projetado para confundir os presentes com excesso de informação, viés explicado em detalhes pelo designer no podcast da marca.

Fica clara a intenção da Margiela de aprofundar o conhecimento do público em seu universo criativo para além do campo estético, chamando a atenção para o capital intelectual da marca, um componente que, embora mais difícil de digerir, amplia o valor das narrativas das coleções na memória coletiva, uma proeza para o meio característico pela constante busca pelo novo.

Uma cadela recepciona os clientes de alta-costura da Margiela

A Margiela não está sozinha no compartilhamento de doses extras de conteúdo sobre seu processo de criação e produção, fazendo coro às maisons que liberam nas redes sociais alguns detalhes imperceptíveis à plateia entretida com o show, de modo a alimentar o público acostumado a maratonar perfis tal qual se fossem séries de streaming.

Afinal de contas, a eterna (e esperada) releitura dos ícones da alta-costura fica muito mais interessante quando descobrimos certas sutilezas nas entrelinhas, como as flores naturais escolhidas pela Chanel para serem bordadas manualmente nos looks, ou a engenharia por trás da das formas aparentemente orgânicas da Iris Van Herpen, revelada na união matemática de centenas e camadas de tecido, informações compartilhadas pelas próprias marcas que reverberam seu movimento de apropriação da cibercultura. Veja:

Fonte: Site Senac Moda Informação. Posted by