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Estudo feito por pesquisadores da Fiocruz coletou materiais educativos relacionados à hanseníase e verificou os sentidos atribuídos a esses materiais por profissionais de saúde que atendem pacientes com a doença. Fonte: Agência Fiocruz Iluminura catalã do século 14 mostra o personagem bíblico Jó atingido pela hanseníase
Os resultados da pesquisa são apresentados em artigo recém-publicado no periódico Cadernos de Saúde Pública. O trabalho busca demonstrar “a importância do componente comunicativo para favorecer um maior conhecimento da doença e fortalecer os vínculos entre a equipe de saúde e os usuários dos serviços de saúde pública”. A pesquisa incluiu 38 materiais educativos, entre folhetos, cartazes e cartilhas, produzidos entre 1995 e 2003 por instituições governamentais e não-governamentais, de âmbito nacional e internacional. Quanto ao público-alvo, 71% se dirigiam à população em geral; 18% a profissionais de saúde; 8% a portadores de hanseníase; e 3% ao público infantil.
Na análise dos materiais voltados à população em geral, os profissionais de saúde participantes do estudo destacaram que folhetos e cartazes com fotos das lesões provocadas pela hanseníase são importantes porque chamam a atenção do público, contribuem para que as pessoas suspeitem da doença e procurem os serviços de saúde. Os profissionais ressaltaram também que esses materiais educativos deveriam ser distribuídos continuamente, e não somente nas épocas de campanha. Sugeriram, ainda, que os materiais fossem distribuídos não apenas nos serviços de saúde, mas também em escolas, bares, associações de moradores, igrejas, estádios de futebol e meios de transporte.
Quanto aos materiais destinados a profissionais de saúde, os participantes elegeram a cartilha como a melhor forma de comunicação. Além disso, os profissionais consultados apontaram que os materiais dirigidos aos portadores de hanseníase devem ser empregados, (durante o atendimento, assim como nas atividades desenvolvidas pela ESF) especialmente, na Estratégia Saúde da Família e no Programa de Agentes Comunitários de Saúde, considerados âmbitos privilegiados para a abordagem educativa.
“Outro aspecto amplamente discutido pelos profissionais refere-se ao fato de que as atividades de comunicação e educação não são uma prioridade nos Programas de Controle de Hanseníase”, diz o artigo, assinado pelas pesquisadoras Adriana Kelly-Santos e Brani Rozemberg, da Escola Nacional de Saúde Pública (Ensp/Fiocruz), e Simone Monteiro, do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz). De acordo com as autoras, quando os profissionais de saúde que lidam diretamente com os pacientes e os próprios portadores da doença não são ouvidos no processo de elaboração dos materiais educativos, corre-se o risco de produzir folhetos e cartazes descontextualizados, pouco atraentes, com excesso de conteúdos e ênfase no conhecimento médico-científico, em detrimento dos aspectos sociais e cultuais que envolvem o tema. Retrato de um oriental (de 1639), do pintor holandês Rembrant van Rijn (1606-1669). Historiadores da arte acreditam que o quadro descreve o rei bíblico Uzziah, que foi atingido pela hanseníase após usurpar a autoridade de um templo sagrado
O aspecto sociocultural mais comumente encontrado nos materiais educativos em análise é a necessidade de integração social dos portadores de hanseníase. Nesse sentido, observou-se que a maioria dos folhetos e cartazes não associava a hanseníase à lepra, pois, embora sejam termos sinônimos, o segundo costuma evocar preconceitos, medo e afastamento social. Essa questão, contudo, levantou polêmica entre os profissionais de saúde ouvidos durante a pesquisa. Alguns comentaram que a população em geral desconhece o vocábulo hanseníase, mas reconhece a palavra lepra. Dessa forma, na opinião desses profissionais, em vez de substituir um termo familiar por um desconhecido, o ideal seria desconstruir o estigma da lepra, destacando que, na atualidade, ela tem tratamento e cura, e explicando por que a doença mudou de nome.
“Conclui-se pela importância de se contextualizar os motivos da mudança terminológica e de se problematizar os sentidos da hanseníase e da lepra junto aos agentes da hanseníase”, diz o artigo. “A mera oferta de informações de como o saber médico, na atualidade, compreende a doença pode não ser o suficiente para se estabelecer uma comunicação que dialogue com as diferentes realidades sociais. Para uma interlocução próxima à realidade do público, é preciso conhecer quem são os sujeitos com quem nos comunicamos, quais as experiências, as representações e os conhecimentos que apresentam sobre a lepra e a hanseníase, com vistas a problematização desses discursos”.
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